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terça-feira, 21 de maio de 2013

A descoberta do ouro no Brasil

#to #rico #puroouro #gangsta #sedutor
O ACHADO DOS BANDEIRANTES 
Quando os portugueses chegaram ao Brasil, o sonho dos primeiros que desembarcaram aqui era repetir a sorte dos espanhóis e achar metais preciosos. Mas eles foram azarados. O ouro no Brasil só foi descoberto quando a colonização penetrou o suficiente para chegar até onde hoje fica o estado de Minas Gerais. E até achar ouro por lá, os colonizadores levaram quase 200 anos. 

Até o século XVII, uma das atividades econômicas de maior importância no Brasil era a produção de cana-de-açúcar, concentrada no nordeste. Quando veio a União Ibérica e os holandeses ocuparam a região (se você não sabia que o nosso nordeste já foi holandês, leia aqui), e mesmo depois que foram expulsos em 1654, a atividade açucareira declinou, e os portugueses sentiram o golpe.

Além do nordeste brasileiro, os holandeses também ocuparam Angola (outra colônia portuguesa) durante sete anos. De lá vinham muitos escravos para trabalhar nos engenhos de açúcar daqui, e com a ocupação holandesa, o preço do escravo negro subiu. Qual era a solução dos senhores de engenho? Pagar mais? Não, claro que não. Eles recorreram ao plano B: Escravizar indígenas, novamente.

Do nordeste ao sudeste, as capitanias de "Bahia de Todos os Sanctos", "Ilheos", Porto Seguro, "Spiritu Sancto", Rio de Janeiro, e em verde, a capitania de "Santo Vicente", onde se localizava São Paulo.
Na capitania de São Vicente, onde ficava a cidade de São Paulo, a pobreza era grande. Por essa época, havia ali grupos organizados, que eram contratados por particulares aqui no Brasil e até pela coroa portuguesa, que faziam expedições Brasil adentro, procurando riquezas e capturando indígenas para as pequenas lavouras cafeeiras da região. Essas expedições eram as Bandeiras, e os caras envolvidos eram chamados de bandeirantes (duh!).

Quando as demais capitanias tiveram problemas com o acesso aos escravos africanos, os bandeirantes foram contratados para caçar mais índios e sanar as dificuldades dos senhores de engenho do Nordeste. E os caras não brincavam: Além dos inúmeros índios capturados (ou mortos) no interior, eles chegaram a atacar missões jesuítas, que concentravam muitos nativos catequizados, capturando dezenas de milhares de deles e revendendo-os às lavouras no nordeste. Essa atividade, que era chamada de "Bandeira de apresamento", se enfraqueceu logo que os holandeses desocuparam Angola, em 1648, e os escravos africanos voltaram a ser trazidos normalmente pra cá.


Finalmente, com o declínio na produção de açúcar, a própria metrópole passou a financiar Bandeiras destinadas à busca de pedras e metais preciosos, e a busca deu resultado com a chegada à região de Minas Gerais. Em 1698, com a descoberta das minas de Ouro Preto, oficialmente começava a corrida do ouro no Brasil.

PAULISTAS vs "EMBOABAS"
Veja abaixo a estátua de Borba Gato, representação de um bandeirante paulista:

Retrato fiel. #só que não
Viu? Agora apaga da memória. A imagem dos bandeirantes foi muito romanceada ao longo do tempo. Os bandeirantes paulistas, descobridores do ouro, eram quase todos mestiços de brancos com indígenas, sendo eles mesmos muito parecidos com os nativos. Além disso, na capitania de São Vicente usava-se o tupi como língua, muito mais do que o português. Armas de fogo, caras e de difícil manuseio, também não eram regra -- muitos bandeirantes usavam arcos e flechas. A imagem de "heróis desbravadores", atribuída a eles nos primeiros anos da República, também esconde a violência com que eram empreendidas as missões de apresamento de índios, com direito a cortar o braço de um índio pra açoitar outro, e matar as crianças e velhos e dar de comida pros cachorros, como relatam jesuítas da época.

Quando a notícia da descoberta do ouro se espalhou, de diversos pontos do Brasil e de Portugal (onde se soube da notícia por meio de cartas dos governadores ao Rei) começaram a chegar pessoas à região das minas, com o propósito de enriquecer rapidamente. E com tanta gente junta de uma vez só, os primeiros anos da mineração foram marcados por uma terrível miséria, chegando os mineiros a cair mortos de fome, "com uma espiga de milho na mão, sem terem outro sustento", como descreve o jesuíta Antonil.


Os paulistas se distinguiam das outras pessoas que chegavam de fora, e costumavam chamá-los pejorativamente de "emboabas", que em tupi significa "pés plumados". Isso era porque os forasteiros usavam botas, e os paulistas, ao contrário do que mostra a estátua de Borba Gato, geralmente andavam descalços. Domingos Jorge Velho, o líder bandeirante que ficou conhecido entre outras coisas por destruir o quilombo de Palmares, viajou descalço de São Paulo ao Piauí.

Depois do período de carestia inicial, os emboabas passaram a abastecer a região das minas. O lucro era alto e esses comerciantes, ricos, passaram a ter grande influência na região. Na época, havia uma estrada que ligava Minas à Bahia, e com o acesso facilitado, houve até senhores de engenho baianos que largaram tudo pra trás, levando consigo os escravos para a mineração e tornando-se comerciantes na região. Além disso, o contrabando de ouro entre Minas e Bahia era intenso. Portugal não gostava nada dessa situação, tanto pelo contrabando como pelo abandono dos engenhos de açúcar, e acabou proibindo os baianos de vender qualquer coisa nas minas, exceto gado.

...disse o fazendeiro baiano.
Os "emboabas" baianos cagaram solenemente para a determinação de Portugal e continuaram fazendo comércio. Então, Borba Gato (o camarada da estátua), que era paulista e guarda-mor das minas -- ele fiscalizava a atividade e se reportava diretamente à Coroa portuguesa -- ordenou a expulsão do líder dos comerciantes da região, o baiano Nunes Viana. Nem preciso dizer que os emboabas todos apoiaram Viana, e esse conflito levou à Guerra dos Emboabas em 1709.


Os paulistas estavam em menor número, mas por serem os descobridores, se achavam donos da região. Mas os emboabas, majoritários, puseram eles pra correr. Um grupo de paulistas, que fugia da região do Rio das Mortes, foi cercado por emboabas. Estes disseram que se os paulistas deixassem as armas, poderiam partir com vida; mas apesar da rendição, ainda assim os emboabas os massacraram, no local que ganhou o nome de "Capão da Traição". Sinistro, né...

Expulsos de Minas, os paulistas deram a volta por cima: Se embrenharam ainda mais no interior e acabaram descobrindo novas jazidas em Goiás e no Mato Grosso.

MEU PIRÃO PRIMEIRO
Bom... Faltou dizer que nos idos de 1700, o Brasil não era muita coisa além de colônia de Portugal. Pertencíamos aos portugueses, e assim todo o ouro e diamantes que eram encontrados aqui. Assim, naturalmente os portugueses administravam a atividade a fim de "garantir o deles".

O ouro aqui no Brasil não dependia de escavações profundas pra ser retirado. Era "ouro de aluvião", esse que fica depositado no fundo dos rios. Então era relativamente rápido de ser extraído, o que ocorria por dois "métodos": O principal era a "lavra", que empregava mão-de-obra escrava (negra) num trabalho relativamente de grande porte. E também havia a "faiscação", que era feita por pequenos mineradores e dispensava o trabalho escravo.

Escravos trabalhando na Lavra
O problema do ouro de aluvião é que ele era fácil de extrair, mas também acabava rapidinho. Assim, toda hora as lavras estavam mudando de lugar. Quando alguém descobria uma nova jazida, a administração portuguesa (através de um órgão chamado "Intendência das Minas") ia até o local e dividia a jazida em "datas", que eram lotes para extração do ouro. O cara que descobrisse tinha prioridade pra escolher a sua, depois os portugueses separavam uma data para si (que era sempre leiloada em seguida), e sorteava-se o resto entre os mineradores da região, que tinham o compromisso de extrair ouro em até 40 dias, sob pena de devolução da data.

Na natureza, o ouro pode ser achado em duas formas: Em pó ou em pedras (pepitas). Formas muito fáceis de serem escondidas e contrabandeadas, diga-se de passagem. O caráter incerto da mineração acabava fazendo com que os mineradores não tivessem como arcar com os custos de todos os escravos, então esses começavam a trabalhar longe de seus senhores, entregando-lhes parte do que encontrassem. Para muitos escravos, surgiu a chance de comprar a própria alforria (liberdade). 

Eu sei que você pensou que seriam barras de ouro bonitinhas como as do Silvio Santos, mas... Não.
Os portugueses, que não eram bobos, sabiam da facilidade de se contrabandear ouro, então desde muito tempo (até antes da descoberta oficial do ouro mineiro) constava no Código Mineiro a criação da Casa de Fundição, que foi instalada em Minas em 1720: Todo o ouro encontrado deveria ser levado a essa "Casa", onde era fundido (derretido) e depois transformado em barras que recebiam o selo da Coroa portuguesa. Só assim poderia circular legalmente, era proibido zanzar com ouro em pedra ou em pó.

Com essa medida, ficava mais fácil para os portugueses cobrarem o Quinto, que era a forma de arrecadação da Coroa sobre a mineração: De toda a quantidade de ouro achada, um quinto (20%) ia pra mão dos portugas. Esse Quinto, no entanto, foi motivo de muita briga. 

O julgamento de Filipe dos Santos
Em 1719, as autoridades mineiras anunciaram: "Aí, ano que vem vão ser instaladas as Casas de Fundição!". Pronto, os mineradores se revoltaram. Virou notícia um tal de Filipe dos Santos, que tinha boa lábia e organizou um levante em Vila Rica (Ouro Preto) em junho de 1720. O motivo da briga era a instalação das Casas de Fundição, mas a galera chegou a planejar assassinar o governador da capitania e declarar a independência da mesma. Não deu pro Filipe, que foi capturado pela guarda local, a tropa dos "dragões", e teve uma morte bem ruim que não se sabe direito o que foi, se foi enforcado e esquartejado, ou amarrado a 4 cavalos e despedaçado no meio da rua.

Como eu falei acima, o ouro acabava rápido. Tanto que em 70 anos a mineração do Brasil atingiu seu auge e declinou. A cada ano o quinto era menor, e não passava pela cabeça dos portugueses que o ouro estivesse escasso: Eles simplesmente pensavam que estava rolando contrabando e ninguém via. Então resolveram fixar o valor anual do Quinto em 100 arrobas (1500 kg), e se no fim do ano o ouro enviado a Portugal não chegasse àquele peso, toda a população das minas ficava sujeita à Derrama, isto é, todo mundo ia ter que contribuir com alguma coisa até que o valor fosse atingido. Era uma merda. Não havia lei, as casas eram invadidas de dia ou de noite, e as coisas eram levadas. Quem tinha lojas estava sujeito a pagar taxas extras, quem tinha escravos também. O número de prisões, mortes e conflitos que ocorriam durante a Derrama aumentava tanto, que no fim do século XVIII, mesmo sem alcançar as 100 arrobas, as autoridades portuguesas resolveram deixar pra lá. Aliás, a Derrama foi um dos fatores que motivou a Inconfidência Mineira, do Tiradentes, lembra dele?



PRA TERMINAR
Além de ouro, foram descobertos diamantes no Brasil. Se Portugal já era linha dura na cobrança do ouro, com as pedras ficou ainda pior. Em 1734, foi criada a "Intendência dos Diamantes", que era a lei e a ordem nos distritos onde os diamantes eram extraídos. A população vivia sob um regime de terror, sem sequer poder deixar a região sem permissão dos intendentes.

Depois que o ouro de aluvião escasseou, surgiu a possibilidade de se explorar as rochas matrizes, mas os brasileiros não tinham o conhecimento técnico necessário. A falta de educação e conhecimento dos brasileiros, como tantas vezes vemos na História, atrapalhou muito a nossa economia, e nessa época não foi diferente.

Os tropeiros e comboeiros levam alimentos, mercadorias e escravos para o interior 
No entanto, a atividade mineira foi o passo mais importante para a criação de um mercado interno articulado no Brasil. Antes da descoberta do ouro, as capitanias pouco se comunicavam, e depois das minas, tudo convergia pra lá: O sul abastecia a região com charque e mulas para o transporte; o Rio de Janeiro mandava pra lá escravos, produtos holandeses e franceses, e também Santos e Bahia faziam o comércio de alimentos, ferramentas e objetos artesanais na região.

CURIOSIDADES:
  Você sabia que o Rio de Janeiro foi "sequestrado" na época da mineração? Um corsário francês chamado René Trouin atacou o Rio com sua esquadra em 1711. Ele esperava dominar a rota de escoamento do ouro que vinha de Minas Gerais. Luís XIV, que era rei da França na época, ajudou a financiar a empreitada de Trouin com a promessa de receber 20% do que os corsários conseguissem roubar na expedição.
 Os franceses chegaram à Baía de Guanabara em 12 de setembro de 1711, mas não eram surpresa pra ninguém: Outro francês, chamado Duclerc, já havia tentado a invasão pouco tempo antes, e 15 dias antes da chegada de Trouin, um navio inglês os havia interceptado e dado a notícia às autoridades portuguesas. A defesa do Rio de Janeiro entrou em ação com os canhões da Fortaleza de Santa Cruz da Barra, em Niterói, e para fugir da artilharia portuguesa, os franceses tomaram a Ilha das Cobras, onde ocuparam vários morros sem resistência. A população, em pânico, refugiou-se nas florestas da região.
Os franceses ficaram aqui cerca de um mês, e ao contrário do que normalmente se esperaria, foram ajudados pela população do Rio de Janeiro, e também ajudaram: Mais de cem cristãos-novos (judeus convertidos ao cristianismo), que eram perseguidos por Inquisidores, foram levados para fora da cidade pelos franceses. O governador da capitania do Rio de Janeiro (odiado pelo povo, que o chamava de "O Vaca") chegou a publicar, na época, um aviso dizendo que "todo morador que em sua casa tiver francês algum, [...] será castigado se meramente, e pelo tempo que me parecer."
O corsário René Duguay-Trouin
Em 13 de novembro daquele 1711, os franceses levantaram âncora de volta ao seu país. Durante a viagem, dois navios se perderam com parte do ouro carregado, mas ainda assim o lucro da expedição foi imenso. René Trouin chegou ao cargo de tenente-general da Esquadra francesa, mas morreu pobre e pouco lembrado em 1736. Hoje há uma estátua sua no Palácio de Versalhes, com 4 metros de altura. 

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REFERÊNCIAS CONSULTADAS 

História do Brasil no Contexto da História Ocidental - Luiz Koshiba, Denise Pereira.
Aconteceu há mais de cem anos... - Elto Koltz (org.)
História para o Ensino Médio: História Geral e do Brasil - Claudio Vicentino, Gianpaolo Dorigo.
A Escola dos Annales e a reinterpretação de fatos históricos - Rejane Cristine Santana Cunha.
Negros da Terra – índios e bandeirantes nas origens de São Paulo. - John Manuel Monteiro.
História Econômica do Brasil - Caio Prado Jr.

1 comentários :

  1. Morri com a primeira foto do post HAHAHAHAHAHA

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